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| Em Novo Horizonte, estabelecendo laços de amizade e troca de conhecimento |
Porteira
adentro, a comunidade rural de Novo Horizonte apresenta um ambiente
alternativo, depois de uma semana de atividades concentradas na
cidade de Murici dos Portelas. Se partirmos da ideia de que lugares
são formados por mundos dentro de outros mundos, podemos dizer que
Novo Horizonte, assim como as outras comunidades rurais atendidas
pelo projeto Rondon, é um lugar único no município.
A
impressão de quem adentra a porteira de Novo Horizonte é que está
dentro de um daqueles lugares, talvez dos livros de Jorge Amado,
embora não estejamos na Bahia. O clima tropical agora faz sentido,
principalmente se levarmos em consideração o fato de estarmos
acostumados com o ambiente subtropical do Rio Grande do Sul.
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| A vivacidade em Novo Horizonte se resume na espontaneidade das crianças |
Mas o
aspecto mais peculiar de todo o lugar é a cor: Novo Horizonte é
prateado como seria o terreno lunar, resultado dos raios do sol das
nove horas em contraste com o terreno predominantemente arenoso, que por sua vez destaca a pele morena dos amistosos e receptivos moradores. Não
se percebe só a diferença na coloração – no noroeste gaúcho,
as cores variam entre o verde e o dourado da soja e do trigo - , mas
um contraste também em nossas ideias em torno do conceito de
ruralidade.
“Aqui
é melhor quando temos um bom inverno”, comenta Seu Manoel da
Silva, denunciando a nós que realmente estamos em um mundo em que as
relações clima-tempo-trabalho são completamente diferentes.
Inverno no Piauí corresponde ao período das chuvas, exatamente no
período em que estamos aqui. Entretanto, foram poucos os dias em que
realmente choveu intensamente durante nossa estada em Murici dos
Portelas.
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| "O terreno arenoso, por sua vez, contrasta com a pele morena dos amistosos e receptivos moradores" |
Em Novo Horizonte, os pequenos agricultores plantam milho, mandioca
e feijão, na realidade, variadas espécies de feijão que ainda não
tínhamos ouvido falar. Um ou outro tem algumas vacas, duas a três,
no máximo, para o leite da família, enquanto as galinhas passeiam
livremente na comunidade. “A maioria de nós aqui era do Murici,
mas quem vem pra cá vem pra trabalhar”, ressalta Francisco da
Silva, ideia essa reforçada por todo mundo que esteve presente na
Oficina de Manejo de Frango Caipira e Suinocultura. Os simpáticos
moradores da comunidade querem crescer: prova disso são as metas
estabelecidas na parede da igreja.
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| Manoel (à esquerda) e Francisco: ávidos por troca de experiências |
Sigo na conversa com o Seu Manoel junto à janela da igreja:
“A produção nossa é pequena e tudo que fizemos na roça é na
mão mesmo. Só tem máquina quem tem mais dinheiro. Mas a gente se
vira como pode. Tá vendo aquela planta ali no meio (aponta para uma
muda de algo parecido com o nosso cinamomo)? É uma árvore nova, a
gente nem sabe o nome, mas esses dias descobrimos que é boa contra
praga no feijão”. Então começamos a falar sobre feijão e que
amanhã mesmo, se assim Deus quiser, ele vai começar a plantar,
porque alguns já começaram. “Esses caboclos que passaram de moto
agora (cena muito comum em Murici dos Portelas), vão todos trabalhar
no corte de cana”.
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| Ao fundo, o lugar onde é feita a farinha de mandioca, cultura comum em Novo Horizonte |
Seu Manoel gosta de conversar, assim como todos
em Novo Horizonte. Até mesmo as crianças:
“Vocês vão sentir saudades de mim?”, perguntou a rondonista
Mariela Camargo para a criançada que se juntou em volta dela. “De
você não, mas do jeito que você fala”, respondem. O povo
piauiense também gosta de ouvir.
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| "Vamos sentir saudades do jeito que você fala" |
Para Francisco da Silva, um dos primeiros a chegar, felicidade é a
palavra que resume a chegada do projeto Rondon na comunidade: "Achei muito boa essa troca de experiência. As informações que vocês nos passaram vão ser bem proveitosas para melhorar nosso rendimento". E não é exagero dizer que, em Novo Horizonte, todos ficaram felizes com nossa presença. Perguntei para outro morador, Antônio dos Santos, se a comunidade recebia alguma assistência técnica: "Aqui não vem ninguém não. No máximo vem o agente de saúde e tudo o que fizemos é conforme a gente acha ser a melhor maneira".
Na oficina da manhã de domingo, o acadêmico Giliardi Zanatta conversou de igual para igual com os produtores locais, que se mostraram participativos, receptivos e atentos a todas as informações repassadas. Em Novo Horizonte mora um povo simples, mas organizado, repleto de saberes e sobretudo preocupado em crescer enquanto comunidade. E nosso desejo é ajudar a apontar novos horizontes de possibilidades.
Davi S. Pereira
Acadêmico de Jornalismo e Rondonista