| Parnaíba: O Velho Monge |
Yo muy serio voy remando muy adentro sonrío
Creo que he visto una luz al otro lado del río
(trecho da música "Al otro lado del río", de Jorge Drexler)
Murici dos
Portelas é um município que cresce às margens do rio Parnaíba, que faz divisa
do Piauí com o Maranhão. As águas do Parnaíba são caudalosas e por isso é
popularmente chamado de Velho Monge. No percurso desse rio está um povo com
raízes bem estabelecidas, mas que carece de recursos e principalmente de uma
voz amiga para auxiliá-lo a enxergar as potencialidades da terra em que
nasceram. E esse é o motivo da operação em que estamos participando ser
denominada Velho Monge.
Durante o
tempo de atividades em Murici dos Portelas, a equipe da Universidade de Cruz
Alta estabeleceu contatos e até mesmo criou laços de amizade com trabalhadores
locais, que desde nossa chegada se aproximaram do projeto Rondon. Em Murici,
encontramos pequenos produtores, homens que tiram da terra seu sustento,
dispostos a superar as dificuldades do quase eterno verão piauiense, mas
conscientes de que para tal missão necessitam de conhecimento.
Conversamos na
tarde de ontem com um grupo de agricultores familiares que estão interessadíssimos
na criação de gado leiteiro. A equipe da Unicruz preparou oficinas sobre a
implantação do sistema silvipastoril e melhoramento de produção leiteira. Mas o
que seria uma apresentação de 50 minutos tornou-se uma agradável troca de
experiências que durou a tarde toda: os produtores emendavam uma questão atrás
da outra, desde sobre alternativas na pastagem para o gado até criação de
ovelhas.
| Conversa com produtores locais sobre criação de gado leiteiro |
“Aqui no
nordeste é o seguinte: a gente não tem aquela tecnologia que vocês têm
disponível lá no sul e nunca veio ninguém aqui para passar uma orientação”,
declara João Rodrigues. O mais espontâneo de todos, Dario Portela, não esconde
a empolgação: “O Projeto Rondon caiu do céu! Murici tem muita sorte!”.
Identificamos
a chave para desencadear o desenvolvimento regional: assistência técnica. Algo
que parece ser tão trivial na região sul, está longe de ser realidade aqui no
Piauí. O que a equipe da Unicruz tem feito ao longo da operação é orientar os
produtores, apontando alternativas viáveis para um melhor rendimento, ajudando-os
a visualizar que as soluções estão mais próximas do que imaginam. “Vocês não
fazem ideia das alternativas que o lugar onde vocês estão oferecem”, diz o aluno Gert Muller, da
Agronomia, aconselhando os produtores locais. Falta aos agricultores familiares
a iniciativa de usar, de forma sustentável, a principal riqueza da região, o
rio Parnaíba. Incentivamos os produtores locais a juntarem esforços na busca e elaboração de projetos que visem recursos junto ao governo para irrigação.
| Acadêmicos da Unicruz em conversa sobre pesca ribeirinha |
O Velho Monge já
é fonte de renda de diversas famílias que vivem às suas margens: “quem trabalha
na roça também pesca”, afirma José de Arimatea, presidente da Associação de
Pescadores de Murici dos Portelas. Com mais de 600 associados em Murici, além
das comunidades de Caxingó e Carnaúba, os pescadores locais são organizados,
mas precisavam de um norte sobre como proceder para enfrentar problemas e
adquirir recursos para a exploração da pesca artesanal. Assim como os
agricultores familiares, a associação também manteve um contato intenso com a
equipe do projeto Rondon, participando ativamente das oficinas oferecidas. Nossa
equipe teve dois momentos especiais com os pescadores: no primeiro, uma reunião
na Câmara de Vereadores em que foi discutido o problema do desaparecimento de
espécies no Parnaíba e as alternativas de repovoamento. Já no segundo encontro,
discutimos com os pescadores a forma de elaborar e onde procurar fontes para
obter recursos para o projeto que a associação pretende elaborar: a obtenção de
barcos a motor que fiquem à disposição dos pescadores.
Há muito a se
fazer para o desenvolvimento das principais atividades econômicas da região, a
pesca e a agricultura familiar. Mas o desejo de aprender que emana de homens
cujas marcas da experiência já estão estampadas em suas faces nos motiva a
oferecer nosso melhor e nos faz sentir que, nessa reta final de operação, nossa
estada em Murici dos Portelas está valendo a pena. É perfeitamente possível
superar os problemas crônicos da região, apesar dos eternos verões, da escassez
de recursos e da falta de uma assistência técnica adequada. Mas isso exige
trabalho (quesito em que todos aqui são exemplares) e principalmente paciência,
conscientes de que os resultados virão a longo prazo. É necessário seguir o mesmo
ritmo do caudaloso Parnaíba, pacientes como um Velho Monge.
Davi S. Pereira -
Acadêmico de Jornalismo e Rondonista
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