Estamos há dois dias em Murici
dos Portelas, jovem município enraizado na parte norte do Piauí. Foram seis
horas de Teresina até nosso destino final, numa viagem cansativa, mas embalada
pela empolgação que tomava conta da “moçada do fundão”, no caso, nós. Ninguém fazia ideia do que iríamos encontrar,
mas no calor da estrada e no entusiasmo da equipe algo dizia que seria
simplesmente único.
Ao
chegar em Murici dos Portelas, fomos abraçados. Literalmente.
Em
Murici, a palavra abraço se junta ao verbo sentir. Acredito que encontramos
aqui o verdadeiro significado de hospitalidade: apesar da pouca infraestrutura e
recursos, o povo da cidade nos tem oferecido, na sua simplicidade e humildade,
o seu Melhor (sim, maiúsculo) e nada seria mais precioso do que isso. A roda de
capoeira e a apresentação da quadrilha de xaxado – para mim, um grande musical
com pinta de ópera sobre a saga de Virgulino Lampião – foram primorosas. A
comida é feita com esmero de uma mãe para com os filhos e os pratos são
verdadeiras iguarias, que nos faz perguntar como que nunca na vida provamos feijão de corda e vatapá.
A
cidade são as pessoas e para conhecê-la de fato, precisamos senti-la. Essa foi
a nossa motivação na primeira manhã em Murici, quando fomos de porta em porta,
loja em loja, bar em bar, para divulgar pessoalmente a chegada do projeto
Rondon. Em cada pessoa, conhecíamos um mundo diferente, descobríamos algo novo
e sobretudo a dar atenção: Em Murici dos Portelas mora um povo carente de
ouvidos que possam ouvir suas histórias e de braços dispostos a abraçá-los. As crianças nos dão seus braços para que possamos pegá-las no colo. No final das oficinas, as pessoas agradecem intensamente com esse símbolo máximo e universal do afeto. Eu
mesmo não lembrava do valor de um abraço.
Mais
do que nos receber com carinho, o povo tem sido solícito para que nossas
oficinas saiam da melhor forma possível. Quando chegamos em Murici, havia
somente cinco computadores para nossos cursos na área de informática. E foi
numa simples conversa com a diretora de uma escola que descobrimos o que
chamamos de “mina de ouro”: havia na escola 18 computadores disponíveis, que
ainda precisavam ser instalados no laboratório de informática. Por sua vez, o
espaço estava em reforma e precisava ser limpo. O resultado foi um intenso
mutirão. Quando nos demos por conta, estávamos contribuindo efetivamente para a
comunidade, deixando a nossa primeira marca na cidade.
Nossas
primeiras oficinas e contatos causaram comoção e impacto no grupo todo. Gert e
Jean voltaram emocionados da oficina de Controle Ecológico de Pragas e Plantas
Medicinais: “Nossa conversa foi olho-no-olho”, disse o Gert. Estamos sentindo
aqui que podemos contribuir efetivamente para a comunidade. Sabemos o quanto a
participação em um projeto como esse pode contribuir para nossa vida
profissional, mas isso é muito pouco comparado ao sentimento de que viemos de
longe, muito longe, para bater um bom papo, receber sorrisos e abraços e
aprender que, não importa se em Cruz Alta ou Murici dos Portelas, ainda estamos
em casa. Como previa, nossa visão de mundo, identidade e de lugar em que
vivemos está sendo alterada. Em suma, nossa vida está mudando. Para melhor.
Primeira lição: O Brasil é nossa
casa.
Davi S. Pereira
Acadêmico de Jornalismo e
Rondonista
Nenhum comentário:
Postar um comentário