terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Murici dos Portelas: Cidade feita de Abraços


Estamos há dois dias em Murici dos Portelas, jovem município enraizado na parte norte do Piauí. Foram seis horas de Teresina até nosso destino final, numa viagem cansativa, mas embalada pela empolgação que tomava conta da “moçada do fundão”, no caso, nós.  Ninguém fazia ideia do que iríamos encontrar, mas no calor da estrada e no entusiasmo da equipe algo dizia que seria simplesmente único.
                Ao chegar em Murici dos Portelas, fomos abraçados. Literalmente.
                Em Murici, a palavra abraço se junta ao verbo sentir. Acredito que encontramos aqui o verdadeiro significado de hospitalidade: apesar da pouca infraestrutura e recursos, o povo da cidade nos tem oferecido, na sua simplicidade e humildade, o seu Melhor (sim, maiúsculo) e nada seria mais precioso do que isso. A roda de capoeira e a apresentação da quadrilha de xaxado – para mim, um grande musical com pinta de ópera sobre a saga de Virgulino Lampião – foram primorosas. A comida é feita com esmero de uma mãe para com os filhos e os pratos são verdadeiras iguarias, que nos faz perguntar como que nunca na vida  provamos feijão de corda e vatapá.
                A cidade são as pessoas e para conhecê-la de fato, precisamos senti-la. Essa foi a nossa motivação na primeira manhã em Murici, quando fomos de porta em porta, loja em loja, bar em bar, para divulgar pessoalmente a chegada do projeto Rondon. Em cada pessoa, conhecíamos um mundo diferente, descobríamos algo novo e sobretudo a dar atenção: Em Murici dos Portelas mora um povo carente de ouvidos que possam ouvir suas histórias e de braços dispostos a abraçá-los. As crianças nos dão seus braços para que possamos pegá-las no colo. No final das oficinas, as pessoas agradecem intensamente com esse símbolo máximo e universal do afeto. Eu mesmo não lembrava do valor de um abraço.

                Mais do que nos receber com carinho, o povo tem sido solícito para que nossas oficinas saiam da melhor forma possível. Quando chegamos em Murici, havia somente cinco computadores para nossos cursos na área de informática. E foi numa simples conversa com a diretora de uma escola que descobrimos o que chamamos de “mina de ouro”: havia na escola 18 computadores disponíveis, que ainda precisavam ser instalados no laboratório de informática. Por sua vez, o espaço estava em reforma e precisava ser limpo. O resultado foi um intenso mutirão. Quando nos demos por conta, estávamos contribuindo efetivamente para a comunidade, deixando a nossa primeira marca na cidade.
                Nossas primeiras oficinas e contatos causaram comoção e impacto no grupo todo. Gert e Jean voltaram emocionados da oficina de Controle Ecológico de Pragas e Plantas Medicinais: “Nossa conversa foi olho-no-olho”, disse o Gert. Estamos sentindo aqui que podemos contribuir efetivamente para a comunidade. Sabemos o quanto a participação em um projeto como esse pode contribuir para nossa vida profissional, mas isso é muito pouco comparado ao sentimento de que viemos de longe, muito longe, para bater um bom papo, receber sorrisos e abraços e aprender que, não importa se em Cruz Alta ou Murici dos Portelas, ainda estamos em casa. Como previa, nossa visão de mundo, identidade e de lugar em que vivemos está sendo alterada. Em suma, nossa vida está mudando. Para melhor.
Primeira lição: O Brasil é nossa casa.

Davi S. Pereira
Acadêmico de Jornalismo e Rondonista

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