segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Por um Novo Horizonte: Equipe da Unicruz na zona rural

Em Novo Horizonte, estabelecendo laços de amizade e troca de conhecimento


 Porteira adentro, a comunidade rural de Novo Horizonte apresenta um ambiente alternativo, depois de uma semana de atividades concentradas na cidade de Murici dos Portelas. Se partirmos da ideia de que lugares são formados por mundos dentro de outros mundos, podemos dizer que Novo Horizonte, assim como as outras comunidades rurais atendidas pelo projeto Rondon, é um lugar único no município.
A impressão de quem adentra a porteira de Novo Horizonte é que está dentro de um daqueles lugares, talvez dos livros de Jorge Amado, embora não estejamos na Bahia. O clima tropical agora faz sentido, principalmente se levarmos em consideração o fato de estarmos acostumados com o ambiente subtropical do Rio Grande do Sul.
A vivacidade em Novo Horizonte se resume na espontaneidade das crianças

Mas o aspecto mais peculiar de todo o lugar é a cor: Novo Horizonte é prateado como seria o terreno lunar, resultado dos raios do sol das nove horas em contraste com o terreno predominantemente arenoso, que por sua vez destaca a pele morena dos amistosos e receptivos moradores. Não se percebe só a diferença na coloração – no noroeste gaúcho, as cores variam entre o verde e o dourado da soja e do trigo - , mas um contraste também em nossas ideias em torno do conceito de ruralidade.
“Aqui é melhor quando temos um bom inverno”, comenta Seu Manoel da Silva, denunciando a nós que realmente estamos em um mundo em que as relações clima-tempo-trabalho são completamente diferentes. Inverno no Piauí corresponde ao período das chuvas, exatamente no período em que estamos aqui. Entretanto, foram poucos os dias em que realmente choveu intensamente durante nossa estada em Murici dos Portelas.
"O terreno arenoso, por sua vez, contrasta com a pele morena dos amistosos e receptivos moradores"

Em Novo Horizonte, os pequenos agricultores plantam milho, mandioca e feijão, na realidade, variadas espécies de feijão que ainda não tínhamos ouvido falar. Um ou outro tem algumas vacas, duas a três, no máximo, para o leite da família, enquanto as galinhas passeiam livremente na comunidade. “A maioria de nós aqui era do Murici, mas quem vem pra cá vem pra trabalhar”, ressalta Francisco da Silva, ideia essa reforçada por todo mundo que esteve presente na Oficina de Manejo de Frango Caipira e Suinocultura. Os simpáticos moradores da comunidade querem crescer: prova disso são as metas estabelecidas na parede da igreja.

Manoel (à esquerda) e Francisco: ávidos por troca de experiências

Sigo na conversa com o Seu Manoel junto à janela da igreja:
“A produção nossa é pequena e tudo que fizemos na roça é na mão mesmo. Só tem máquina quem tem mais dinheiro. Mas a gente se vira como pode. Tá vendo aquela planta ali no meio (aponta para uma muda de algo parecido com o nosso cinamomo)? É uma árvore nova, a gente nem sabe o nome, mas esses dias descobrimos que é boa contra praga no feijão”. Então começamos a falar sobre feijão e que amanhã mesmo, se assim Deus quiser, ele vai começar a plantar, porque alguns já começaram. “Esses caboclos que passaram de moto agora (cena muito comum em Murici dos Portelas), vão todos trabalhar no corte de cana”. 

Ao fundo, o lugar onde é feita a farinha de mandioca, cultura comum em Novo Horizonte

Seu Manoel gosta de conversar, assim como todos em Novo Horizonte. Até mesmo as crianças:
“Vocês vão sentir saudades de mim?”, perguntou a rondonista Mariela Camargo para a criançada que se juntou em volta dela. “De você não, mas do jeito que você fala”, respondem. O povo piauiense também gosta de ouvir.
"Vamos sentir saudades do jeito que você fala"


Para Francisco da Silva, um dos primeiros a chegar, felicidade é a palavra que resume a chegada do projeto Rondon na comunidade: "Achei muito boa essa troca de experiência. As informações que vocês nos passaram vão ser bem proveitosas para melhorar nosso rendimento". E não é exagero dizer que, em Novo Horizonte, todos ficaram felizes com nossa presença. Perguntei para outro morador, Antônio dos Santos, se a comunidade recebia alguma assistência técnica: "Aqui não vem ninguém não. No máximo vem o agente de saúde e tudo o que fizemos é conforme a gente acha ser a melhor maneira". 
Na oficina da manhã de domingo, o acadêmico Giliardi Zanatta conversou de igual para igual com os produtores locais, que se mostraram participativos, receptivos e atentos a todas as informações repassadas. Em Novo Horizonte mora um povo simples, mas organizado, repleto de saberes e sobretudo preocupado em crescer enquanto comunidade. E nosso desejo  é ajudar a apontar novos horizontes de possibilidades.

Davi S. Pereira
Acadêmico de Jornalismo e Rondonista

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