segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Operação Velho Monge: o fim é só o começo




 - Já vão? A gente vai sentir falta de vocês passando por aqui todo dia.
Quem diz isso é uma senhora em frente à sua casa enquanto nossa equipe volta ao alojamento para a última refeição que as cozinheiras Francisca e Alice prepararam com esmero de sempre em nossa estada em Murici dos Portelas.  Se no início causávamos estranhamento pela cor dos olhos e da pele, pelo sotaque diferente e por andarmos sempre em grupo, nos últimos dias a comunidade estava acostumada com os gaúchos de amarelo que falavam gritando.
Já estamos de volta à Teresina, não acreditando que nossa missão está cumprida e, no silêncio de nossas camas, tentando compreender com plenitude o que o projeto Rondon significou para nossas vidas. Entretanto, o último contato com a comunidade, na manhã de sábado, nos deu certeza do quanto nós significamos para os muriciences. Durante a entrega dos certificados, todos queriam fotografar e abraçar cada um de nós, independentemente se os conhecíamos de alguma oficina ou não. Murici dos Portelas é, definitivamente, a cidade dos abraços.
Mas que povo é esse que conhecemos no Piauí? Com cada rondonista que conversamos, o sentimento é o mesmo: um povo que carrega no coração uma simplicidade ímpar, que vivem o mundo com os pés no chão e, mesmo com as dificuldades,  cada pessoa que conhecemos faz o seu melhor do pouco que possuem. O projeto Rondon transformou a nossa visão a respeito dessa região tão preciosa do Brasil: convivendo nos lugares mais remotos do Piauí,  encontramos um sentimento que muitos procuram, mas não sabem como encontrar: felicidade.
Encerramento

Felicidade seria uma das diversas palavras que resumiriam a reta final da operação Velho Monge. Os muricienses nos ensinaram que para sermos felizes não é necessário nada além de estender a mão ao próximo sem esperar nada em troca e se alegrar por isso. Mas quando pensávamos que estávamos ajudando, na realidade era a comunidade que nos ofereciam suas mãos. Em Murici dos Portelas, pessoas comuns nos deram o suporte que contribuiu decisivamente para o nosso trabalho. E foi com esse povo solícito e hospitaleiro que aprendemos nossa maior lição.

Certas pessoas, como a professora Chaguinha, foram fundamentais para a equipe da Unicruz
Conhecemos a professora Chaguinha no primeiro dia de operação, quando fazíamos o primeiro contato com a comunidade. Fomos informados de que 100 pessoas estavam escritas na oficina de Inclusão Digital, mas não havia computadores suficientes. Foi então que a professora nos abriu as portas da escola em que é diretora, a E.E. Otávio Escórcio Gomes. Havia 20 computadores que precisavam ser instalados no laboratório de informática, que por sua vez estava em reformas. Nossa equipe fez questão de instalá-los e organizar o local e mais do que isso: a escola se tornou a nossa segunda casa em Murici dos Portelas.
O resultado da ação da professora é que formamos cerca de 100 pessoas na Oficina de Inclusão Digital. Tamanha grandeza merecia algo além da nossa gratidão:

Laboratório antes

Laboratório depois



No sábado, entregamos o novo laboratório de informática e agradecemos profundamente à professora por ter sido tão generosa, hospitaleira e solícita conosco. Foi então que recebemos o melhor presente do Piauí:
- Eu tenho na minha vida o seguinte pensamento: quem não vive para servir, não serve para viver.

 O conselho da professora é com certeza o legado que levaremos da Operação Velho Monge. Uma simples frase que dá sentido ao projeto Rondon: fazer com que os jovens retornem aos seus lares e universidades conscientes de que a missão das nossas vidas é fazer das nossas futuras profissões sejam um instrumento para servir ao próximo. O Rondon vai além do certificado recebido na cerimônia de encerramento. É uma lição de vida que consiste em voltar a acreditar nas utopias; é cantar a plenos pulmões que somos pescadores de ilusões em um Brasil que brota esperança nos seus cantos mais longínquos. É acreditar que, depois do adeus, o fim é só o começo.

Davi S. Pereira
Acadêmico de Jornalismo, Rondonista e pescador de ilusões

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